Nasci na Fazenda do Caetê, perto do aeroclube. Vivi
numa simplicidade da qual nunca tive vergonha.
Meu pai era oleiro, ajudava meu avô na Olaria NC –
Natalino Catadori –, e minha mãe era boia-fria – apanhava café.
Eu como menina levada, amava acordar de manhã para ver
os animais e plantas que havia perto de casa, mas minhas preferidas eram as
rosas que minha mãe cultivava. Uma vez, minha curiosidade foi tanta, que não
bastava ver a beleza das rosas, eu as queria cheirar, porém, quando me encostei
a uma delas uma abelha picou minha boca. “Ai, que dor!”
Ao lado de minha casa tinha um pé de amoras, onde eu
me deliciava com aquelas gostosas e pretinhas frutinhas já quase caindo do pé
de tão maduras. Havia também uma mangueira, onde eu me lambuzava e um
coqueirinho que eu não via a hora de crescer para produzir coquinhos. Estas
árvores eram meus xodós.
Naquela época, íamos à cidade quase toda semana a pé,
pois carro não tínhamos e meus pais ficavam cansados, porque tinham que me
carregar pela estrada toda e, como eu era fofinha, eles ficavam me trocando de
colo para poderem aguentar.
Certa vez, meu pai teve a ideia de fazer um cavalinho
de bambu para mim, assim quando íamos à cidade eu o colocava para andar, então
meus pais, além de ficarem mais sossegados, ficavam aliviados, porque enquanto
eu estava distraída com o brinquedo não precisavam me carregar.
E por falar em brinquedos, estes eram minha paixão. Eu
amava brincar com meu carrinho de lata. Meus pais furavam uma lata de leite
Ninho dos dois lados, enchiam-na de terra, tampavam-na e pelos furinhos
transpassavam um barbante ou arame e eu puxava a lata por todo lugar.
O verão era minha estação favorita, pois chovia muito
e eu adorava ver as gotinhas de chuva que pingavam das goteiras que se formavam
à beira do telhado. Eu as ficava olhando se espalhando pelo chão. Minha mãe me
dizia que eram menininhas correndo em volta da casa e eu amava essa situação.
Minha mãe e eu, uma vez, fomos ao serviço do papai,
passamos o dia lá, mas, na hora de voltarmos, estava chovendo e meus pais não
queriam que eu tomasse chuva, então, meu pai me colocou num saco plástico e carregou-me até em casa. Aquela foi uma
deliciosa sensação.
O tempo foi passando e alguns anos depois nos mudamos
para a casa do meu avô, na cidade, no Jardim Novo Mundo, mais exatamente na Rua
Francisco Cacozzi. Pagávamos aluguel para ele. Água encanada, luz elétrica e
chuveiro não tínhamos. Me lembro que tomávamos banho de bacião.
Edna e Vilma foram minhas primeiras amigas,
brincávamos de miss – usávamos flores do campo para coroar a cabeça, fazer
mangas de blusas e saias para nossos vestidos naturais. Brincávamos de apostar
quem conseguia andar mais tempo pendurada no barranco, quem chegasse mais longe
era a vencedora. Fazíamos biquinhas com
bambu, com a água geladinha da chuva que escorria pelos barrancos.
Eu estudava na D. José Maurício da Rocha, uma escola
ótima, onde todos já escreviam de caneta a partir da segunda série. Eu adorava
isso.
Depois mudamos para a Rua Expedicionário Bragantino,
entre o Lavapés e a Vila Motta.
O bairro era todo urbanizado, eu não tinha com quem
nem onde brincar. Morávamos em um porão, era só tristeza. Tive que sair da
minha escola tão querida. Passei a estudar no Sesi 364. Lá tinha que escrever
de lápis até a quarta série e eu odiava.
Mais tarde, mudamos de novo, dessa vez para o Parque
Brasil, na Rua Roberto Simonsen. Lá fiz novas amizades, voltei a ser feliz e a
estudar na minha escola favorita a D. José Maurício da Rocha.
Hoje sinto falta da simplicidade daquela vidinha, vejo
que as crianças não se importam com mais nada, têm tudo na mão, mas não têm uma
infância gostosa como eu tive, gostam apenas de aparelhos eletrônicos ou
elétricos, e, para mim, nem sabem o que é realmente brincar.
Texto baseado nas memórias da professora Andreia Ap. Catadori Rodrigues
Castilho
Ellen
Monique Artioli Santos, 2ª colocada na Olimpíada de Língua Portuguesa
2012 – Categoria Memórias

Nenhum comentário:
Postar um comentário