sábado, 12 de março de 2016

Experiência chamada “Vida”!!!


Lembrança é o que a borracha não apaga, o vento não leva e a água não molha.
Nasci na Fazenda do Caetê, perto do aeroclube. Vivi numa simplicidade da qual nunca tive vergonha.
Meu pai era oleiro, ajudava meu avô na Olaria NC – Natalino Catadori –, e minha mãe era boia-fria – apanhava café.
Eu como menina levada, amava acordar de manhã para ver os animais e plantas que havia perto de casa, mas minhas preferidas eram as rosas que minha mãe cultivava. Uma vez, minha curiosidade foi tanta, que não bastava ver a beleza das rosas, eu as queria cheirar, porém, quando me encostei a uma delas uma abelha picou minha boca. “Ai, que dor!”
Ao lado de minha casa tinha um pé de amoras, onde eu me deliciava com aquelas gostosas e pretinhas frutinhas já quase caindo do pé de tão maduras. Havia também uma mangueira, onde eu me lambuzava e um coqueirinho que eu não via a hora de crescer para produzir coquinhos. Estas árvores eram meus xodós.
Naquela época, íamos à cidade quase toda semana a pé, pois carro não tínhamos e meus pais ficavam cansados, porque tinham que me carregar pela estrada toda e, como eu era fofinha, eles ficavam me trocando de colo para poderem aguentar.
Certa vez, meu pai teve a ideia de fazer um cavalinho de bambu para mim, assim quando íamos à cidade eu o colocava para andar, então meus pais, além de ficarem mais sossegados, ficavam aliviados, porque enquanto eu estava distraída com o brinquedo não precisavam me carregar.
E por falar em brinquedos, estes eram minha paixão. Eu amava brincar com meu carrinho de lata. Meus pais furavam uma lata de leite Ninho dos dois lados, enchiam-na de terra, tampavam-na e pelos furinhos transpassavam um barbante ou arame e eu puxava a lata por todo lugar.
O verão era minha estação favorita, pois chovia muito e eu adorava ver as gotinhas de chuva que pingavam das goteiras que se formavam à beira do telhado. Eu as ficava olhando se espalhando pelo chão. Minha mãe me dizia que eram menininhas correndo em volta da casa e eu amava essa situação.
Minha mãe e eu, uma vez, fomos ao serviço do papai, passamos o dia lá, mas, na hora de voltarmos, estava chovendo e meus pais não queriam que eu tomasse chuva, então, meu pai me colocou num saco plástico e carregou-me até em casa. Aquela foi uma deliciosa sensação.
O tempo foi passando e alguns anos depois nos mudamos para a casa do meu avô, na cidade, no Jardim Novo Mundo, mais exatamente na Rua Francisco Cacozzi. Pagávamos aluguel para ele. Água encanada, luz elétrica e chuveiro não tínhamos. Me lembro que tomávamos banho de bacião.
Edna e Vilma foram minhas primeiras amigas, brincávamos de miss – usávamos flores do campo para coroar a cabeça, fazer mangas de blusas e saias para nossos vestidos naturais. Brincávamos de apostar quem conseguia andar mais tempo pendurada no barranco, quem chegasse mais longe era a vencedora. Fazíamos biquinhas com bambu, com a água geladinha da chuva que escorria pelos barrancos.
Eu estudava na D. José Maurício da Rocha, uma escola ótima, onde todos já escreviam de caneta a partir da segunda série. Eu adorava isso.
Depois mudamos para a Rua Expedicionário Bragantino, entre o Lavapés e a Vila Motta.
O bairro era todo urbanizado, eu não tinha com quem nem onde brincar. Morávamos em um porão, era só tristeza. Tive que sair da minha escola tão querida. Passei a estudar no Sesi 364. Lá tinha que escrever de lápis até a quarta série e eu odiava.
Mais tarde, mudamos de novo, dessa vez para o Parque Brasil, na Rua Roberto Simonsen. Lá fiz novas amizades, voltei a ser feliz e a estudar na minha escola favorita a D. José Maurício da Rocha.
Hoje sinto falta da simplicidade daquela vidinha, vejo que as crianças não se importam com mais nada, têm tudo na mão, mas não têm uma infância gostosa como eu tive, gostam apenas de aparelhos eletrônicos ou elétricos, e, para mim, nem sabem o que é realmente brincar.

Texto baseado nas memórias da professora Andreia Ap. Catadori Rodrigues Castilho


Ellen Monique Artioli Santos, 2ª colocada na Olimpíada de Língua Portuguesa 2012 – Categoria Memórias

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