Situada entre sete colinas, assim como
Roma, Bragança Paulista, a “Cidade Poesia”, localiza-se a cerca de 75 km da capital, no interior
do estado de São Paulo. Teve sua ascensão no final do século XIX, sendo
reconhecida como Sede Regional do Governo Paulista, atraindo a atenção de
poderosos cafeeiros da época com a construção do terceiro teatro de ópera do
Brasil e o mais antigo e pioneiro paulista: o Teatro Carlos Gomes.
Os autores da majestosa construção
neoclassicista iniciada em 1892, Fellipe Siqueira e Izidro Teixeira, tiveram a
ideia financiada pela riqueza dos fazendeiros e sem nenhum registro de quem
seria o arquiteto. Sua inauguração, em 1894, foi um dos acontecimentos mais
importantes da cidade, sendo palco de importantes companhias teatrais, batizado
com apresentações das óperas Guarany e Bohème.
No início dos anos 20, pela primeira
vez, fechava suas portas e cessavam os aplausos, Com isso, comportou várias
atividades, como chás da tarde da alta sociedade bragantina, estande de tiro ao
alvo, pista de patinação, lavanderia e até fábrica de jacás.
Em 1927, foi negociado entre a Câmara e
a Diocese, a fim da instalação do Colégio São Luiz, sofrendo uma mudança em sua
arquitetura, tornando-se referência em todo o Estado como exemplo de boa
educação, levando consigo o nome da cidade e a presenteando com a sede
diocesana. Mas, em 1970, seria desativado novamente.
Alugado em 1980, abrigou a Fundação
Municipal de Ensino Superior e o Colégio João Carrozzo, porém, devido à alta do
aluguel, foi devolvido em 2000.
Após esses acontecimentos, o prédio foi
tombado como Patrimônio Histórico Municipal no final de 2000, e comprado pela
prefeitura, em 2005, utilizado apenas como depósito de enfeites natalinos. Após
todas as ações, foi abandonado completamente.
Sob o título de “O Belo Parado”, a
reportagem do Estadão, edição de 3 de abril de 2011, revelou todos os projetos
de reforma e restauro da prefeitura em relação ao prédio, orçados em R$ 8,5
milhões.
Sua suntuosidade, segundo a proposta de
reforma e restauração aprovada pelo prefeito João Afonso Sólis, abrigaria um
Centro Cultural, com oficinas, escolas de música e dança, biblioteca, um
pequeno museu e teatro para 300 pessoas.
Gerando uma enorme polêmica, a decisão
foi impugnada pelo Ministério Público a partir de uma representação do então
vereador Moufid Doher contra a contratação da empresa FUPAM (Fundação para
Pesquisa em Arquitetura e Ambiente) para execução do projeto arquitetônico sem
licitação e pela terceirização de parte dos serviços. O episódio causou
alvoroço entre os vereadores.
O caso tomou tamanha repercussão que,
com inúmeras ações movidas pelo MOB (Movimento Outra Bragança) a respeito do
descaso com o Belo, tornou-se nacionalmente conhecido pelo quadro “Proteste
já!” do programa CQC (Custe o que Custar) da TV Bandeirantes, no qual seus
integrantes buscam uma atitude do Executivo quanto à assinatura para a
liberação da obra. Com o aparente fracasso da reportagem, devido o prefeito não
cumprir com a promessa de liberar a obra em poucos dias, em 1º de agosto
de 2012, foi ao ar, pelo mesmo quadro, o simbólico enterro cultural do prédio.
Frente à situação, a população se
dividiu. Há pessoas que alegam que a reforma é desperdício de verbas, visto que
o povo não se importa com a cultura e que o certo seria derrubá-lo e construir
um edifício moderno. Outros afirmam que a recuperação do teatro seria uma forma
de homenagear a história bragantina, uma vez que o majestoso levou Bragança a
ser uma das cidades mais importantes do Estado, além de ser um imóvel
monumental, que faz jus ao nome “Belo”.
Diante de todas as glórias e fracassos,
penso que, deixar se acabar um complexo arquitetônico tão importante seria
contribuir para que a essência bragantina se perdesse e fosse destruída,
esquecida em ruínas, depois de tanto honrar, com esplendor e imponência, o nome
da cidade.
Permitir, portanto, a destruição do
prédio, é desdenhar as lutas e vitórias do povo, que, assim como a história
desse teatro, traduz a fala de Confúcio, pensador e filósofo chinês, dizendo
que a nossa maior alegria não está no fato de nunca cairmos, mas, sim, em
levantarmos após cada queda.
Fernanda Augusta da Silva Gazzaneo, 1ª
colocada na Olimpíada de Língua Portuguesa 2012 – Categoria Artigo de Opinião
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