Explorados até a última gota!
Colonizado
pelos portugueses em 1530, o Brasil possuía e ainda possui várias fontes de
exploração, tais como o pau-brasil – a árvore da qual se extraía valioso
corante vermelho, e hoje devido a tal abuso se tornou rara no país -, o
algodão, açúcar, ouro, diamantes entre outros.
Assim
como a Nação Verde e Amarela, Bragança Paulista, uma cidade situada no interior
do estado de São Paulo, fundada em 15 de dezembro de 1763, conhecida por ser a
Terra da Linguiça e a Cidade Poesia, localiza-se numa região geográfica
produtora de águas, e por isso vêm sofrendo constante exploração dessa sua
riqueza.
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| Patrícia Faria |
Parecida
com o Brasil colonial, minha cidade e todos os municípios que formam a Bacia
PCJ (bacia hidrográfica que compreende os rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí),
podem ser afetados pela exploração de suas águas, que são levadas para
abastecer a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) desde a década de 60.
O
Sistema Cantareira, um conjunto de represas formado pelos reservatórios
Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro, inaugurado em 1974, e
que hoje capta e trata cerca de 33 mil litros de água por segundo abastecendo
55% da RMSP, incluindo a capital, é formado por um processo de transposição de
águas dos rios que formam a Bacia PCJ. De acordo com a Secretaria de
Planejamento do Estado de São Paulo, foram implementados incentivos para
encontrar novas fontes de abastecimento para a região, já que o Cantareira,
mesmo sem a falta de chuvas histórica que o estado vem enfrentado, não
conseguiria dar conta de suprir tantas necessidades hídricas com o
desenvolvimento econômico e a densidade demográfica da região.
O
grande problema é que com a ausência de chuvas o Cantareira já está agonizando.
Então
me pergunto qual será o preço a se pagar por essa exploração?
Com
a falta de água, o comércio, as indústrias e a população urbana entrariam em
completa desordem, e teríamos de viver a base de caminhões pipas, dos quais a
qualidade da água não é garantida. E por estarmos em pleno ano eleitoral, todos
querem encobrir a situação.
Diante
das consequências nefastas da crise que se alastra pelo estado, até agora, o
que vimos são as autoridades preocupadas com a RMSP, isso é nítido em seus discursos,
e procurando novos meios para abastecê-la, embora todos possam sofrer com a
seca, ninguém se pronunciou sobre novos meios de abastecer os que moram no
interior e foram explorados durante décadas. Estamos assistindo, de camarotes, a
nossa riqueza se esvaindo e as autoridades insistindo em dizer que não faltará
água na região.
Eu
me pergunto como não faltará se a vazão do rio que nos abastece está diminuindo
a cada dia, a represa que era abastecida por suas águas já está operando com o
volume morto e a previsão meteorológica diz que choverá menos que a média
histórica dos 30% que secou os reservatórios neste verão.
O
que percebemos é que a população não está conscientizada sobre a gravidade da
situação pela falta de divulgação, já que, ao que tudo indica, todos tentam
acobertar o infortúnio por estarmos em um ano eleitoral, sem pensar que o
montante de água que desperdiçamos hoje, é a gota que fará falta na tormenta de
amanhã.
No atual estado em que a situação se encontra, eu
penso que, a divulgação do problema é importante para que a população se atente
e diminua o consumo, pois sabemos que 97% da água do nosso planeta é salgada, e
os outros 3% que sobram, pouco menos de 1% é água destinada ao uso humano.
Pode-se dizer que a população era e é leiga, pois não sabia, e muitos ainda não
sabem, da transposição de águas que ocorre na nossa região, ou seja, até então
estamos usando esse líquido como se o tivéssemos em abundância, mesmo com a
crise que se alastra anunciando um futuro amedrontador.
Notícias
mais frequentes nos meios de comunicação, folhetos e campanhas contundentes já
seriam úteis para deixar os moradores da Região Sudeste, como um todo,
inteirados no assunto e com a atenção voltada ao que ainda é possível fazer:
armazenar água da chuva, reutilizar água proveniente de máquinas de lavar
roupas, cobrar a reutilização por parte das indústrias, enfim evitar o
desperdício.
Portanto,
se o Cantareira se recuperar, existirá a necessidade de mudança no seu sistema
operacional, que devido à exploração sem limites, sem planejamento e sem
investimentos que já se faziam necessários há muitos anos, corre o risco de
esvair-se, e com isso todos nós que residimos no mais populoso estado do país,
responsável por 12% do PIB da nação, podemos sofrer prejuízos inestimáveis e eu
diria até inimagináveis.
O
que vemos é que assim como em 1530, nossas riquezas continuam a ser exploradas
sem organização, sem limites, sem sustentabilidade, só que dessa vez, pelos
seus próprios habitantes, que, em sua maioria, nem têm consciência de tamanha
atrocidade, uma vez que são conduzidos de olhos fechados por suas autoridades
que não parecem preocupadas em fazer deste um país sustentável.
Patrícia Faria, na época estudante da Escola Estadual Dr. Fernando Amos Siriani, vencedora da III Olimpíada de Língua Portuguesa, na cidade de Bragança Paulista